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Christian Fittipaldi celebra carreira, mas acredita que desistiu cedo da F1

Créditos: Divulgação/José Mario Dias

O sobrenome Fittipaldi é um dos mais tradicionais da história do automobilismo. Wilson Fittipaldi Júnior fez história em competições nacionais e internacionais, sendo o responsável pela criação da Copersucar Fittipaldi, única equipe brasileira de Fórmula 1.

Emerson Fittipaldi foi o primeiro piloto do Brasil a ser campeão mundial de F1, vencendo os campeonatos de 1972, pela Lotus, e 1974, pela McLaren. Também fez história nos Estados Unidos, conquistando o campeonato da Fórmula Indy em 1989, mesmo ano de sua primeira vitória nas 500 Milhas de Indianápolis. Emerson ainda faturou a edição de 1993 da corrida, eternizando seu nome no automobilismo americano.

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Filho de Wilson, Christian Fittipaldi cresceu entre carros e corridas. Dono de uma longeva carreira e com participações na Fórmula 1, Fórmula Indy (e Cart, na época da divisão), Nascar e IMSA, o agora ex-piloto – se aposentou em 2019 – conversou com o Garagem360 sobre sua trajetória nas pistas.

Vida de piloto: o início

Ao relembrar o início de sua vida no automobilismo, Christian diz que tudo sempre foi muito natural para ele. “Aconteceu muito cedo em minha vida. Lembro que era criança quando foi o auge da equipe de Fórmula 1. Na escola, a professora colocava a gente sentava no chão e perguntava para todo mundo qual era a profissão do pai. Um coleguinha falava que o pai era bancário, o outro que o pai era jornalista. E eu, com a maior naturalidade, dizia que o meu tinha uma equipe de Fórmula 1, como se fosse o mesmo que ter uma padaria”, conta.

Nessa época, a fábrica da equipe Fittipaldi ficava em São Paulo, próxima ao autódromo de Interlagos. “Muitas vezes eu saia da escola e passava por lá. Entrava e brincava com os mecânicos, com pedaços de suspensão de carro, de carroceria, o que tinha. Era a minha realidade e fui indiretamente influenciado por isso, não vou mentir”, relembra Christian. “No começo, ser um Fittipaldi pode ajudar um pouco, mas se você não for competente, não vai servir de nada. Agora, se tiver um nome por trás e for competente, é claro que vai ter um valor maior.”

Todo o contato com as pistas fez ele entrar no mundo do automobilismo, iniciando sua trajetória no kart. Para Christian, ele começou a ter dimensão do rumo que sua vida estava tomando quando começou a disputar campeonatos internacionais. “No mundial de kart a disputa é conta os melhores pilotos do mundo inteiro e que estão correndo ali no final de semana. A competitividade é muito alta. A partir dele foi que começou a cair a ficha”, conta.

Caminho até a F1

Como é comum aos pilotos, Christian migrou do kart para categorias de fórmula, passando pela Fórmula Ford. Assim seguiu até chegar na Fórmula 3000, que na época era a porta de entrada para a F1. E o brasileiro demonstrou um excelente desempenho, sendo campeão logo em sua temporada de estreia, em 1991.

A conquista fez o piloto tentar uma vaga na principal categoria do automobilismo, já que ele não achava uma boa ideia disputar mais uma temporada na F-3000. “Fazendo o segundo ano, eu tinha tudo a perder e nada a ganhar. Porque se você já ganhou no primeiro, como que não vai ganhar outra vez. E se você perde, começam a dizer que foi sorte, que o piloto não é tão bom. Então fui, meio que indiretamente, sendo forçado a fazer a transição”, afirma Christian.

Quem abriu as portas para o brasileiro foi a equipe Minardi – que depois foi vendida para a Red Bull (em 2005), virando a Toro Rosso até 2019, quando foi renomeada como AlphaTauri para 2020. De volta a 1992, Christian diz que aceitou correr pelo time italiano por confiar no projeto. “A gente acreditou no que a Minardi estava fazendo. Eles vinham de uma parceria com a Ferrari em 1991, mas eu sabia que eles estavam indo de Lamborghini em 1992 e que eles estavam melhorando bastante”, explica. “A Minardi tinha conseguido dois quartos lugares em 91, então a conclusão foi: é uma Williams ou uma McLaren? Não, mas era algo bem sólido da F1.”

O primeiro ano na Fórmula 1 serviu de aprendizado para o brasileiro. Christian sofreu com quebras e até um acidente sério durante a classificação do GP da França, que causou a quebra de sua quinta vértebra. Apesar de toda a dificuldade, ele conseguiu pontuar na penúltima prova de 1992, ao chegar em sexto no GP do Japão e marcar seu único ponto na temporada de estreia.

Em 1993, novamente com o carro da Minardi, Christian teve mais sorte. Foi quarto colocado logo na primeira prova, na África do Sul e chegou em quinto no GP de Mônaco. Porém, a cena mais memorável de sua passagem na categoria aconteceu durante a corrida da Itália.

Na última volta, Fittipaldi tenta ultrapassar seu companheiro de equipe, o italiano Pierlugi Martini já quase na linha de chegada de Monza. Porém, ao tentar realizar a manobra, Martini reduz a velocidade e fecha a porta. Sem ter como evitar o contato, Christian decola e vê seu carro completar um loop.

Por sorte, o bólido caiu sobre suas rodas e o brasileiro conseguiu completar a corrida mesmo após o susto. “Não aconteceu absolutamente nada comigo. Soltei o cinto, desci do carro e voltei andando para o box. Ele estava em sétimo e eu em oitavo. Ninguém ia marcar ponto (na época, apenas os seis primeiros pontuavam), mas você tem aquele instinto de competidor”, conta Christian, que relembra o acidente. “Eu saí da Parabólica bem mais rápido e achei que dava para passar. Peguei o vácuo e, na hora que tirei, ele mexeu o carro, coisa que não estava esperando. Eticamente você não faz isso, ainda mais naquela velocidade. Eu tive sorte que o carro levantou, mas caiu em cima das rodas.”

Para 1994, Christian mudou de ares e foi para a equipe Footwork, mais famosa pelo nome Arrows. Em sua terceira temporada, o piloto conseguiu como melhor resultado o quarto lugar nos GPs do Pacífico e da Alemanha, encerrando o ano com seis pontos. Mesmo sendo seu melhor ano na categoria, o brasileiro não tinha vaga para 1995. E, após algumas negociações frustradas, decidiu tentar a sorte dos Estados Unidos, migrando para a Fórmula Indy.

“Se você me perguntar se tenho algum arrependimento, eu digo que tenho sim. Acho que desisti do sonho da Fórmula 1 muito rápido. Chegou uma hora que fiquei cansado de toda a sacanagem, de falarem uma coisa na sua frente e mudarem assim que você sai”, desabafa o brasileiro. “Uma vez que cheguei nos Estados Unidos, fui ficando. Quando olhei para trás, tinha perdido o bonde da F1. O negócio foi embora e eu perdi a carona. Então fiquei nos EUA.”

Mudança

A Indy (e posteriormente a Cart após a cisão da categoria) foi a casa de Christian Fittipaldi entre 1995 e 2002. Apesar da mudança completa em sua vida, ele diz que esperava por mais diferenças no carro da categoria, em comparação ao F1. “Foi muito mais próximo do que eu pensava. Eu cheguei na Indy e pensei que o carro ia acelerar menos, mas fiquei impressionado. Não o quanto ele acelerava nas curvas, mas por causa dele e do motor turbo, que tinha uma elasticidade muito maior. Os freios, mesmo sem usarem carbono como a F1, impressionaram também. Claro que não freava no mesmo ponto que frearia em um Fórmula 1, mas freava bem tarde”, analisa o ex-piloto. “Acho que era completamente factível um piloto de F1 migrar para um F-Indy e vice-versa. Alguns que fizeram essas mudanças tiveram mais sucesso, outros menos, mas era completamente factível.”

Nascar e o caminho até a IMSA

Quando a Cart começou a ser enfraquecida, com algumas das principais equipes migrando para a IRL, o outro lado da divisão da Indy, Fittipaldi sentiu que era o momento de procurar um outro caminho. Foi quando o brasileiro entrou na Nascar, principal categoria de carros de turismo dos Estados Unidos.

A trajetória, porém, foi curta, durando cerca de dois anos. Com isso, Christian tentou achar um lugar em outras categorias. Um sinal de onde seria seu futuro veio em 2004, quando venceu as 24H de Daytona pela primeira vez. “Depois da Nascar, até engrenar de novo nos protótipos, em 2011, eu fiquei alguns anos tentando me firmar. Mas durante esse período eu não estive no lugar certo e na hora certa. Entre 2005 e 2010, eu fiquei experimentando outras coisas, mas sem conseguir engrenar em algo específico”, conta.

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Em 2011 ele voltou a pilotar protótipos, de onde não saiu mais. Quando a Internacional Motor Sports Association (IMSA) resolveu criar um novo campeonato de endurance, em 2014, Christian estava no lugar certo e na hora certa. A bordo do Corvette Daytona Prototype, ele venceu as 24H de Daytona pela segunda vez na temporada de estreia do campeonato, sendo campeão da categoria ao fim do ano.

O segundo título veio em 2015, sendo que Christian ficou em segundo em 2016 e em terceiro no ano seguinte. Em 2018, com o Cadillac DPi-V.R, ele faturou sua terceira vitória nas 24H de Daytona. E foi justamente nessa mesma pista, em 2019, que o brasileiro fez sua última prova oficial, terminando a corrida de resistência em sétimo lugar.

Aos 49 anos e longe das pistas há um ano e meio, Fittipaldi se diz satisfeito com sua carreira, mas sem vontade nenhuma de voltar. “A forma de sorte no automobilismo veio para mim em proteção. Em não me ter machucado em acidentes que talvez seriam fatais. Acho que Papai do Céu não deixou eu ganhar tudo, fez eu ganhar algumas coisas, mas em compensação, depois de 38 anos fazendo isso, me devolveu inteiro em casa”, declara. “Já passou um ano e meio e senti zero de falta de estar acelerando. Não estou arrependido. Foi do jeito que foi.”

Vivendo nos Estados Unidos, o brasileiro segue próximo do automobilismo, sendo uma espécie de consultor de sua equipe no IMSA, além de manter laços com a Cadillac. “Por enquanto vou deixar o futuro me levar, mas não tenho nada em mente”, finaliza Christian Fittipaldi, que pretende não fazer planos para as próximas etapas de sua vida.

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