Entenda como o fim da produção nacional da Ford impacta o setor automotivo

Na última segunda-feira (11), a Ford anunciou a bombástica decisão de encerrar suas fabricações no Brasil. Dessa forma, após 102 anos produzindo veículos no País, a companhia entendeu que era a hora de realizar uma mudança completa em sua atuação e assumir o papel de importadora. Sem um de seus maiores nomes, a indústria brasileira perdeu um de seus principais nomes, resultando em demissões em massa e incertezas para concessionárias e produtores de autopeças.

Fim da produção nacional da Ford

O tamanho do impacto dessa notícia fez com que o Garagem360 produzisse algumas reportagens sobre o tema. Primeiramente, noticiando o fim das operações da Ford brasileira. Depois foi feita uma análise sobre alguns erros cometidos pela própria companhia e que culminaram na decisão da última semana. Entretanto, essa mudança da marca americana traz um sinal de alerta para a indústria nacional, já que pode revelar um grande problema do setor e que pode fazer com que outras empresas percam o interesse de produzir no Brasil.

Talvez o primeiro sinal que o fechamento das fábricas da Ford represente é que o setor automotivo mundial está passando por um momento de mudança. “Ao longo dos últimos anos o setor automotivo tem passado por profundas mudanças. Ele existe há 100 anos e surgiu em uma cultura totalmente diferente do que o mercado atual exige”, explica o professor da IBE-FGV Antônio Jorge Martins.

Especialista em cadeia automotiva, ele diz que a transformação digital tem feito com que as marcas gastem muito, o que impacta o aspecto financeiro das operações. “Essa transformação significa um grande volume de investimentos voltados para quatro pilares: conectividade, carros autônomos, compartilhamento de veículos e motores elétricos, que prefiro chamar de sustentáveis”, diz Antônio. “Todas as fabricantes hoje evitam esforços muito grandes para realizar investimento nesses quatro aspectos. O que acontece é que elas desenvolvem grandes investimentos, mas sem dar o retorno financeiro adequado, o que fez o setor automotivo mundial passasse a ser considerado de elevado risco financeiro.”

Esse maior risco teve um impacto direto nas finanças das companhias, já que segundo Antônio isso faz com que haja maiores taxas de juros para as empresas, enquanto que os acionistas pressionam por um maior retorno financeiro.

Era das fusões

Para dar conta dessa realidade, diversas empresas têm feito fusões ou alianças. “Só para citar alguns casos, temos FCA e PSA se unindo, além de Renault, Nissan e Mitsubishi fortalecendo a aliança. Honda e Chevrolet também anunciaram uma união para motores elétricos. Toyota e BYD são outras que têm uma parceria para desenvolverem motores elétricos”, diz Antônio.

A Ford, por sua vez, não se movimentou nesse sentido. Até anunciou uma parceria com a Volkswagen para a produção de picapes e veículos comerciais, mas segue sozinha para os demais segmentos. Dessa forma, além de ter que lidar com o desenvolvimento de veículos mais tecnológicos em todo o planeta, a empresa ainda teve que arcar com os prejuízos na operação brasileira, que acontecem desde 2013 segundo a marca, e os impactos negativos da pandemia de covid-19, responsável por uma grande retração em 2020.

“Não sei se já estava previsto para acontecer agora, mas tudo isso fez a Ford antecipar sua estratégia de somente atuar com carros com maior conteúdo tecnológico. Porém, ela não teve capacidade financeira para fazer com que esses veículos novos fossem fabricados no Brasil”, afirma Antônio. “Todas as fabricantes estão se autoanalisando, porque hoje as matrizes estão altamente engajadas no desenvolvimento desses carros mais tecnológicos e destinando recursos financeiros significativos para isso. Dessa forma, não há condições para suportar as operações e também novos investimentos nas subsidiárias.”

Perda de atratividade

Porém, não foi apenas o aspecto financeiro que fez a Ford desistir da produção no Brasil. Para Marco Barreto, professor do departamento de Engenharia Mecânica da FEI, o custo de produção no Brasil influenciou na decisão da companhia. “Diversos fatores reduzem a competitividade dos produtos fabricados no Brasil, como custo estrutural, carga tributária, instabilidades políticas e financeiras, entraves burocráticos, infraestrutura deficitária, a não definição de políticas públicas de longo prazo. Com maior custo – e por consequência menor lucratividade -, o País está se distanciando das prioridades da indústria automotiva.”

Ex-CEO da Jaguar Land Rover e atual sócio da MRD Consulting, Flavio Padovan acredita que já passou da hora do Brasil discutir uma nova cadeia de impostos. “Não é que está na hora, já passou. É uma situação difícil. O Brasil precisa da reforma tributária. Infelizmente, o governo está paralisado, não consegue aprovar nenhuma reforma, e isso faz com que o País passe a ter baixa atratividade para investimentos. É uma necessidade urgente o governo aprovar essa reforma.”

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Outro ponto levantado por Flavio é da ociosidade de produção de veículos no País. “O Brasil tem capacidade instalada para produzir 5 milhões de veículos, mas no ano passado foram feitos só 2 milhões. Então pode se imaginar que essa capacidade ociosa causa um custo muito grande para as fabricantes. Os desafios são enormes, o mercado vai se recuperar, mas vai demorar”, explica.

Concessionárias e autopeças

Além dos funcionários das fábricas da Ford terem perdido seus empregos, há o temor que outras áreas sejam atingidas. No caso das concessionárias, o medo é que a falta de produtos acessíveis afastem clientes, que já olham com desconfiança para a Ford. “Com certeza vai haver o fechamento de concessionárias, porque a marca vai deixar de vender muitos carros. Por mais que continue importando, o volume vai ser muito pequeno”, diz Flavio Padovan. “Por isso o impacto no mercado é grande, porque o consumidor fica inseguro, já que não sabe quanto o carro dele vai valer, se vai ter manutenção e peças. Claro que a Ford deve ter um plano para manter concessionárias por conta da assistência técnica, mas será um número menor. A Ford torna-se uma empresa pequena como importadora e com um baixo volume de negócios.”

O setor de autopeças é outro que deve ser sofrer com a decisão da Ford. “As autopeças verificarão a redução do volume de peças programadas pela montadora e, por consequência, de sua produção e faturamento. Cada autopeça deve vivenciar seu impacto de maneira diferente, pois depende da representatividade da montadora em seus negócios. Se  fornece apenas para os segmentos de veículos que deixarão de ser fabricados e vendidos, suas perdas serão ainda maiores. Considerando a manutenção do volume de vendas, ou mesmo o seu aumento durante os próximos meses, outras montadoras devem ser contempladas com novos clientes e, por consequência, aumentar sua participação de mercado”, declara o professor da FEI Marco Barreto.

Com todas essas incertezas, é preciso fazer com que o Brasil volte a ser atraente para as empresas. Além da reforma tributária, é necessário que as autoridades se aproximem do setor. “Primeiro, precisam ser discutidas, votadas, aprovadas e implementadas as reformas estruturais e tributárias, pois são importantes para todos os setores produtivos. Simultaneamente, deve-se retomar o diálogo mais próximo com o setor e entender as diferentes necessidades de cada fabricante. Isso não significa discutir a concessão de subsídios, mas entender e auxiliar as montadoras nessas transição de produtos e modelo de negócio”, diz Marco Barreto.

Por mais que possa ser um caso isolado, o fim da produção nacional da Ford acende um alerta para a indústria brasileira. Há tempos diversas fabricantes reclamam do cenário brasileiro. No último mês, a Mercedes-Benz encerrou sua produção de carros no Brasil. Jaguar Land Rover e Audi têm estudado se compensam manter a produção de suas plantas. Até mesmo a General Motors, líder de vendas com a Chevrolet, tem se mostrado descontente com os rumos da indústria brasileira.

Enquanto isso, a Ford vai tentar manter sua operação como importadora, tendo como desafio o custo do câmbio e a desconfiança do consumidor. Além disso, a marca promete tentar vender a Troller, que seguirá produzindo no Ceará por mais alguns meses. Fica a esperança para que de fato a venda seja concluída e não se torne mais uma novela na história da empresa americana, como foi há dois anos com a venda da fábrica de São Bernardo do Campo, que no fim caiu nas mãos de uma construtora – e não de outra fabricante, como era a promessa inicial.

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