Artigo: as mudanças a curto (e a longo) prazo no mercado automotivo

Por Luca Cafici* 

As pessoas superestimam as mudanças a curto prazo e tendem a subestimar as transformações a longo prazo. A frase não é minha, mas uma citação de Bill Gates, o grande empresário da tecnologia e um dos homens mais ricos do mundo. Ela pode descrever diferentes situações, sem dúvida, mas encaixa-se perfeitamente para compreendermos o mundo durante e, principalmente, após a pandemia de covid-19. Não faltam análises que projetam diferentes setores nos próximos meses e anos. Porém, mais do que decifrar os impactos recentes, é preciso entender as modificações estruturais que irão se refletir daqui a dez, quinze anos. No mercado automotivo, por exemplo, é essencial descobrir o papel que essa área vai desempenhar na sociedade como um todo.

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De todas as mudanças que o novo coronavírus trouxe em 2020, poucos ecossistemas passaram por tantas adaptações quanto o automotivo. Das montadoras que tiveram de suspender a produção de carros novos aos aplicativos de transporte compartilhado, passando pelo ato de vender e comprar automóveis, todas as empresas precisaram se preparar para novos desafios. O cenário de transformação digital finalmente chegou, com a entrada de novos players em diferentes segmentos e o surgimento de modelos de negócios que vão trazer produtos e serviços inovadores.

Mas isso é apenas a ponta de toda a transformação que vai ocorrer daqui em diante. A digitalização, a princípio uma questão de necessidade, acelerou-se nos últimos tempos porque as pessoas e empresas enxergaram as vantagens que o canal pode oferecer aos negócios. Isso vai modificar o próprio comportamento do consumidor ao longo do tempo, tornando-se mais digital e menos analítico, mais focado na experiência e menos no preço em si. São questões que irão desencadear novas percepções no mercado automotivo, principalmente na compra e venda de carros. Duas delas são primordiais:

1 – O carro voltou a ser importante no cenário de mobilidade

Antes da pandemia de covid-19, não seria exagero afirmar que o automóvel era visto como ‘vilão’ em políticas de mobilidade. Havia uma valorização do transporte público e de meios alternativos, como compartilhamento de carros, bicicletas e patinetes, em contraponto à presença dos veículos nas ruas. Bom, com uma pandemia exigindo distanciamento social e menos aglomeração, o carro particular tornou-se alternativa segura tanto para viagens mais curtas quanto para as longas. Em resumo: as pessoas voltaram a se interessar por ter o próprio carro a fim de não depender do transporte público e colocar a saúde em risco com um vírus global acumulando infectados e mortes.

2 – Os negócios on-line serão inevitáveis

A negociação de produtos e serviços em canais digitais certamente foi um dos destaques da pandemia, permitindo que setores inteiros da economia mantivessem a rentabilidade durante o período de suspensão de atividades presenciais. No mercado automotivo não é diferente. No período mais difícil da quarentena e do isolamento social, as pessoas queriam vender seus automóveis, seja para fazer o downgrade ou simplesmente conseguir recursos financeiros. A questão é que, mesmo após o retorno das atividades das lojas físicas, percebe-se um movimento cada vez maior de valorização dos canais digitais. Assim, os negócios on-line para comprar e vender automóveis serão inevitáveis a partir de agora – e os usuários irão valorizar justamente as empresas que entregarem a melhor experiência possível, permitindo que eles possam fazer tudo sem sair de casa.

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Diante de uma pandemia que desafia a política, a economia, a saúde e as relações sociais em todo o mundo, imaginar e estimar mudanças nos próximos anos não chega a ser tarefa tão difícil. É claro que teremos transformações significativas nos meses que sucederem o avanço da doença. O segredo, portanto, é saber quais delas serão perenes e quais vão acarretar, de fato, uma verdadeira revolução nos hábitos e nas relações das pessoas. No caso do mercado automotivo, algumas já surgem como desafio ao ecossistema. Cabe aos players se prepararem e se adequarem ao novo mundo que surge pela frente.

*Luca Cafici é CEO da InstaCarro, plataforma que realiza a intermediação na venda de veículos

 

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