O submundo das baterias: “Mercado clandestino” recicla 75% dos componentes de carros elétricos

Oficinas clandestinas na China já reciclam 75% das baterias de carros elétricos, gerando lucros de US$ 1.400 por veículo. Entenda os riscos deste "mercado cinza".

Enquanto a indústria global de veículos elétricos (EVs) foca na sustentabilidade, uma economia paralela e perigosa prospera na China. Oficinas clandestinas, operando sem qualquer licença ambiental ou de segurança, já dominam cerca de 75% do setor de reciclagem de baterias no país.

O negócio é movido por margens de lucro astronômicas: cada veículo desmontado pode render até US$ 1.400 (cerca de R$ 7.200) para os infratores, enquanto as empresas oficiais enfrentam uma ociosidade preocupante.

“Mercado clandestino” recicla 75% dos componentes de carros elétricos

Uma investigação do veículo chinês Yicai revelou como o esquema funciona. Escondidas em galpões sem identificação, essas oficinas compram baterias usadas de seguradoras, leilões e motoristas de aplicativo por valores até 30% maiores do que as recicladoras legalizadas conseguem pagar.

O modelo de negócio é direto:

  • Triagem: Baterias com mais de 50% de capacidade são “maquiadas” e revendidas para fabricantes de bicicletas elétricas e sistemas de energia portáteis.

  • Extração: Células danificadas são destruídas para a retirada de metais preciosos como lítio, cobalto e níquel.

  • Margem: Com um investimento inicial baixo (cerca de US$ 85 mil), essas unidades geram lucros de milhões, interceptando a matéria-prima que deveria ir para as empresas da “lista branca” do governo.

"Mercado clandestino" recicla 75% dos componentes de carros elétricos - Foto: Yicai
“Mercado clandestino” recicla 75% dos componentes de carros elétricos – Foto: Yicai

Riscos: O custo ambiental e de segurança

Diferente de gigantes como a CATL, que recuperam mais de 98% dos metais com tecnologia de ponta, as oficinas clandestinas utilizam métodos rudimentares. O cenário comum inclui trabalhadores sem equipamentos de proteção, uso de furadeiras manuais para abrir células e descarte negligente de resíduos químicos.

Além do desperdício de recursos, a falta de rastreabilidade é um risco para o consumidor final. Há relatos de “mixagem” de células de diferentes capacidades em baterias recondicionadas, o que pode causar incêndios ou falhas críticas em dispositivos que utilizam esses componentes reciclados.

Foto: Yicai

O Desafio Regulatório de 2026

A China prevê uma avalanche de descarte: 820 mil toneladas de baterias em 2025, saltando para 1 milhão de toneladas até 2030. Para tentar conter o caos, novas diretrizes entram em vigor em abril, focando na rastreabilidade obrigatória do berço ao túmulo.

Contudo, o mercado paralelo permanece otimista. No submundo da reciclagem chinesa, a lógica é simples e cruel para o meio ambiente: quem paga mais leva a bateria, independentemente das normas de segurança.

Você confiaria em uma bateria “recondicionada” para sua bicicleta elétrica ou sistema solar sabendo que ela pode ter vindo de um mercado clandestino? 

 

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Robson Quirino
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Robson Quirino

Sou Robson Quirino. Formado em Comunicação Social pelo IESB-Brasília, atuo como Redator/ Jornalista desde 2009 e para o segmento automotivo desde 2019. Gosto de saber como os carros funcionam, inclusive a rebimboca da parafuseta.